Entrevista com Rubens Alves
'Dia do Professor' sem educação de qualidade
MARIA REHDER
Mesmo com professores que se esforçam para dar uma boa aula e muitas vezes têm de assumir classes em mais de duas escolas para ter um salário digno, as crianças brasileiras têm apresentado péssimo desempenho quando submetidas às avaliações nacionais e internacionais de Educação. O JT ouviu Rubem Alves , professor emérito da Unicamp, para saber o que pode ser feito para mudar essa realidade.
JT Pergunta: O Dia do Professor ainda é uma data a ser comemorada?
Rubem Alves: O melhor presente para o Dia do Professor seria a garantia de espaço para que pudessem trocar experiências, que tivessem pelo menos uma hora por semana para si, sem ter de cumprir tarefas burocráticas. Os políticos pensam que o problema da Educação é resolvido com a inauguração de escolas ou com o aumento do salário. O aumento do salário é importantíssimo, mas só dar mais dinheiro não resolve o problema, é preciso mudar a cabeça dos professores, que estão presos a currículos que vêm de cima, e estes, por sua vez, estão atrelados ao vestibular - coisa mais besta do mundo. Nem o Lula nem o Alckmin passariam no vestibular e não é porque são burros, mas porque têm memória inteligente, diferente do que o vestibular exige: um conteúdo decorado que ninguém mais lembra depois de um mês da prova.
Mas o que você quer dizer com 'mudar a cabeça dos professores'?
São várias coisas. Uma condição para ingressar no magistério deveria ser amar a criança, mas muitos o escolhem apenas para conseguir emprego. A inércia também é um problema, pois muitos se acomodam a um determinado sistema. A única maneira que vejo para mudar a cabeça desses professores é falar, é fazer com que essas pessoas descubram que a Educação é uma coisa maravilhosa. Acho um absurdo aqueles professores que não conseguem manter a disciplina. Se as crianças estão indisciplinadas é porque aquilo que têm em aula não interessa. Gosto de 'botar minhoca' na cabeça dos professores para que tentem sair da rotina. Imagine que chato é ter de seguir o mesmo currículo ano após ano.
Então o que é preciso ser feito para melhorar este cenário?
Escola para todos não resolve o problema, é preciso ver o que a escola tem feito com a criança. É importante construir escolas, mas também dar estrutura que garanta a Educação. Não se faz orquestra sem instrumentos, mas não são estes que garantem boa sinfonia. É na escola que as crianças aprendem a odiar a leitura. A condição básica para se gostar de ler é não ser submetido a um teste, porque a leitura é um exercício de prazer, de vagabundagem.
Há algum modelo de formação de professor que faria a diferença?
As faculdades de Educação não ensinam a amar uma criança. Não se forma bons professores simplesmente acrescentando conteúdo. Há um conceito da sociologia - o 'outro significativo'- que explica bem essa questão. Os outros são todos aqueles que não são você. Os 'outros significativos' são todos aqueles que são importantes para você. É com base neste contexto que lanço as seguintes perguntas para os diretores: 1)quem são os seus outros significativos?; 2)seriam as crianças?; 3)quantas horas você passa com os alunos?; 4)quantas horas você passa desenvolvendo atividades burocráticas?
Já que mencionou os diretores, o que considera uma boa gestão?
É difícil falar dos diretores porque há tanto diretor quadrado, mas também há muito diretor legal. A tentativa de fazer coisas novas e não atuar como defensor de patrimônio público é o caminho para a boa gestão. Fico inconformado com diretores que deixam os computadores em salas fechadas porque têm medo que os alunos os quebrem. O diretor deve atuar como mãe protetora. Deve cuidar para que a criança não se machuque, mas deve evitar que a escola siga o esquema de 'linha de montagem'.
Na prática, como seria este esquema de linha de montagem?
É o preparar a criança apenas para o vestibular, para o mercado de trabalho. Tanto se fala de inclusão, mas dificilmente um aluno com Síndrome de Down vai se enquadrar neste esquema. O que as escolas precisam é ensinar a amar, e isso não é ciência, isso não é passado aos educadores nos cursos de pedagogia.
Qual seria o modelo de escola ideal?
Bom professor é aquele que aprende com as crianças. Admiro o modelo da Escola da Ponte de Portugal, cujo o aluno diz para o professor quando esta pronto para ser avaliado. Outro bom modelo é a Escola Waldorf, que faz com que a criança fique imersa por cerca de 2 meses em um mesmo tema, aprenda no seu tempo, sem ter de trocar a cada 50 minutos de aula. Defendo toda avaliação que não valorize a resposta do aluno, mas que estimule a capacidade de questionar.
Daqui a 10 anos teremos avanços na Educação pública brasileira?
Hoje temos três coisas acontecendo. Uma é a escola tradicional. A outra é a rápida aprendizagem da criança pela internet, mas que os pobres não têm acesso. E, por último, temos as pequenas tentativas de mudanças, novas pedagogias, que são fascinantes, pois vejo como positivo tudo o que surge para mudar. Mas temos muitos pais que são inimigos dessas mudanças, pois exigem que a escola prepare seus filhos para o vestibular, para o mercado de trabalho.
[Jornal da Tarde]
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Fonte: http://www.universia.com.br/noticia/materia_clipping.jsp?not=33802
