Meus Estudos Em Rede: 27/01/2008

31 janeiro 2008

"O poder tem medo da Internet"

Vejam que interessante - entrevista com Manuel Castells.


10/01/2008
"O poder tem medo da Internet", diz o sociólogo Manuel Castells

Milagros Pérez Oliva

Se alguém estudou as interioridades da sociedade da informação é o sociólogo Manuel Castells (nascido em Hellín em 1942). Sua trilogia "A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura" (editada no Brasil pela editora Paz e Terra) foi traduzida para 23 idiomas. É um dos primeiros cérebros resgatados: voltou à Espanha para dirigir a pesquisa da Universidade Aberta da Catalunha em 2001, depois de ter pesquisado e dado aulas durante 24 anos na Universidade da Califórnia em Berkeley. Uma de suas pesquisas mais recentes é o Projeto Internet Catalunha, no qual durante seis anos analisou, por meio de 15 mil entrevistas pessoais e 40 mil através da rede, as mudanças que a Internet introduz na cultura e na organização social. Ele também acaba de publicar, com Marina Subirats, "Mujeres y hombres, ¿un amor imposible?" (Alianza Editorial), no qual aborda as conseqüências dessas mudanças.


Ilustração: Galismarte. Foto: Marcos Nagelstein/Folha Imagem
Sociólogo Manuel Castells analisa o papel da Internet nas relações sociais e na política

El País - Esta pesquisa mostra que a Internet não favorece o isolamento, como muitos crêem, e sim que as pessoas que mais batem papo são as mais sociáveis.
Manuel Castells - Sim. Para nós não é nenhuma surpresa. A surpresa é que esse resultado tenha sido uma surpresa. Há pelo menos 15 estudos importantes no mundo que dão esse mesmo resultado.

EP - Por que acredita que a idéia contrária se propagou com sucesso?
Castells - Os meios de comunicação têm muito a ver. Todos sabemos que as más notícias são mais notícia. Você utiliza a Internet e seus filhos também; mas é mais interessante acreditar que ela está cheia de terroristas, de pornografia... Pensar que é um fator de alienação vem a ser mais interessante do que dizer: a Internet é a extensão da sua vida. Se você é sociável, será mais sociável; se não é, a Internet o ajudará um pouco, mas não muito. Os meios de comunicação são de certo modo a expressão do que a sociedade pensa: a questão é por que a sociedade pensa assim.

EP - Por medo do novo?
Castells - Exatamente. Mas medo de quem? A velha sociedade da nova, os pais de seus filhos, as pessoas que têm o poder ancorado em um mundo tecnológico, social e culturalmente antigo, em relação ao que lhes vem por cima, que não entendem nem controlam e que percebem como um perigo, que no fundo é. Porque a Internet é um instrumento de liberdade e de autonomia, quando o poder sempre se baseou no controle das pessoas, através da informação e da comunicação. Mas isso está acabando, porque a Internet não pode ser controlada.

EP - Vivemos em uma sociedade em que a gestão da visibilidade na esfera pública midiática, como a define John J. Thompson, se transformou na principal preocupação de qualquer instituição, empresa ou organismo. Mas o controle da imagem pública exige meios que sejam controláveis, e se a Internet não o é...
Castells - Não é, e isso explica por que os poderes têm medo da Internet. Estive em não sei quantas comissões assessoras de governos e instituições internacionais nos últimos 15 anos, e a primeira pergunta que os governos sempre fazem é: como podemos controlar a Internet? A resposta é sempre a mesma: não podem. Pode haver vigilância, mas não controle.
EP - Se a Internet é tão determinante na vida social e econômica, seu acesso pode ser o principal fator de exclusão?
Castells - Não, o mais importante continuará sendo o acesso ao trabalho e à carreira profissional, e, antes, o nível educacional, porque sem educação a tecnologia não serve para nada. Na Espanha a chamada divisão digital é uma questão de idade. Os dados são muito claros: entre os maiores de 55 anos, só 9% são usuários da Internet, mas entre os menores de 25 anos são 90%.

EP - Então é só uma questão de tempo?
Castells - Quando minha geração tiver desaparecido não haverá divisão digital no acesso. Mas na sociedade da Internet o complicado não é saber navegar, mas saber aonde ir, onde buscar o que se quer encontrar e o que fazer com o que se encontra. Isso exige educação. Na realidade, a Internet amplia a mais antiga lacuna social da história, que é o nível de educação. Que 55% dos adultos não tenham completado a educação secundária na Espanha é a verdadeira divisão digital.

EP - Nessa sociedade que tende a ser tão líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que tudo muda constantemente e que está cada vez mais globalizada, pode aumentar a sensação de insegurança, de que o mundo se move sob nossos pés?
Castells - Há uma nova sociedade que tentei definir teoricamente com o conceito de sociedade-rede, e que não está muito longe da que Bauman define. Creio que, mais que líquida, é uma sociedade em que tudo está articulado de forma transversal e há menos controle das instituições tradicionais.

EP - Em que sentido?
Castells - Se amplia a idéia de que as instituições centrais da sociedade, o Estado e a família tradicional, já não funcionam. Então todo o nosso chão se move ao mesmo tempo. Primeiro, as pessoas pensam que seus governos não as representam e não são confiáveis. Assim, começamos mal. Segundo, pensam que o mercado vai bem para os que ganham e mal para os que perdem. Como a maioria perde, há uma desconfiança do que a lógica pura e dura do mercado possa proporcionar às pessoas. Terceiro, estamos globalizados; isso quer dizer que nosso dinheiro está em algum fluxo global que não controlamos, que a população está submetida a pressões migratórias muito fortes, de modo que é cada vez mais difícil encerrar as pessoas em uma cultura ou em fronteiras nacionais.

EP - Que papel a Internet desempenha nesse processo?
Castells - Por um lado, ao nos permitir o acesso a toda a informação, aumenta a incerteza, mas ao mesmo tempo é um instrumento chave para a autonomia das pessoas, e isso é algo que demonstramos pela primeira vez em nossa pesquisa. Quanto mais autônoma é uma pessoa, mais ela utiliza a Internet. Em nosso trabalho definimos seis dimensões de autonomia e comprovamos que quando uma pessoa tem um forte projeto de autonomia, em qualquer dessas dimensões, utiliza a Internet com freqüência e intensidade muito maiores. E o uso da Internet reforça ao mesmo tempo sua autonomia. Mas, é claro, quanto mais uma pessoa controla sua vida menos confia nas instituições.

EP - E sua frustração pode ser maior devido à distância que há entre as possibilidades teóricas de participação e as que se exercem na prática, que se limitam a votar a cada quatro anos, não acha?
Castells - Sim, há uma enorme defasagem entre a capacidade tecnológica e a cultura política. Muitos municípios implantaram pontos de acesso sem fio, mas se ao mesmo tempo não forem capazes de articular um sistema de participação eles servirão para que as pessoas organizem melhor suas próprias redes, mas não para participar da vida pública. O problema é que o sistema político não está aberto à participação, ao diálogo constante com os cidadãos, à cultura da autonomia, e portanto essas tecnologias só distanciam ainda mais a política dos cidadãos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Fonte: UOL Mídia Global - Site: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/01/10/ult581u2405.jhtm - acessado em 31/01/2008

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30 janeiro 2008

A era pós-profissional

Vejam que artigo interessante para reflexão ... e ação!

A era pós-profissional
Roberto Macedo – OESP(Ce3) – 27.Jan.2008

O jornal Valor publicou em 27/12/07 interessante entrevista com a socióloga ítalo-americana Magali Safatti. Ela veio ao Brasil participar da mesa Profissões e Sociedades em Transição, no congresso anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs).
Na entrevista abordou tema que é a linha mestra dos nossos artigos neste espaço - o “descolamento’ entre as profissões e suas ocupações típicas. Da entrevista transparece que isso tem alcance internacional, e na sua análise Safatti identifica o que chama de era pós-profissional, em que o trabalho é marcado por novas formas de inserção dos especialistas.
Safatti acompanhou bem o surgimento dessa nova era, a qual é relativamente recente. Prova disso é que em 1977 lançou um livro com o título de A Ascensão do Profissionalismo - Uma Análise Sociológica, pela editora da Universidade da Califórnia (EUA).
Nessa época, “a identidade profissional, uma das bases da organização social do mundo moderno, conferia a alguém que pudesse ser identificado como engenheiro, médico ou advogado, o direito de dizer verdades sobre a sua fatia do mundo. A profissão era também um projeto social determinante para a mobilidade social”.
Isso levava à criação de grupos corporativos em torno das profissões, com aqueles que as exerciam sendo identificados e respeitados pela natureza clara dos serviços que ofereciam, como os de saúde, assumindo no seu meio social uma posição de poder em face do seu domínio da área.
Hoje, três décadas depois, diz que esse modelo corporativo foi substituído pelo que chama de 'especialidades tecno-burocráticas'. Uma especialidade desse tipo é uma forma de conhecimento que se insere no social, sem criar grupos corporativos. Exemplificando a partir de ocupações como analista financeiro, especialista em diagnóstico médico por imagens e tradutor de softwares, Safatti pondera que as pessoas que as exercem “não assumem mais um projeto coletivo de poder”, e argumenta que muitas ocupações que surgiram ao longo do tempo ‘não são profissões, pois não constróem identidades’.
Elaborando sobre sua visão, ela diz que no novo status “é como se essas pessoas fossem mestres em procedimentos, mas não são o que eram os engenheiros e os advogados, um grupo’.
E mais: argumenta que um dos “elementos essenciais de uma profissão é a construção de um campo, de uma área do conhecimento em torno do qual crescem paredes”, dentro e fora das quais os que a dominam são os únicos autorizados a falar desse campo. Hoje, “essas paredes são cada vez mais fluidas”. “Você pode ser qualquer coisa. Pode ser historiador e administrar uma empresa.” Ou ser um engenheiro e tornar-se um analista financeiro, acrescento.
TRANSIÇÃO
Ou seja, estamos numa fase em que a antiga situação convive com a nova. Ademais, como no caso da Medicina, em algumas profissões os muros continuarão necessariamente fortes. As novidades vêm das muitas ocupações que são criadas pelo desenvolvimento econômico, institucional e tecnológico, num processo que divide, amplia e diversifica fortemente as atividades que as pessoas exercem ao trabalhar.
O sistema educacional, conservador por natureza, corre atrás desse processo, sem condições de acompanhá-lo nos seus detalhes, ou até mesmo se equivocando ao tentar fazer isso, com uma profusão de novos cursos e “profissões”. Com isso, inadequadamente forma pessoas mais voltadas para a situação antiga, e que saem por aí à procura do que fazer, freqüentemente só encontrando oportunidades fora das áreas em que estudaram. Daí o “descolamento” a que nos referimos.
Evidentemente, a era pós-professional abre imenso campo para reflexões. Para quem analisa o mercado de trabalho, participa dele ou fará isso no futuro, o importante é acompanhar as mudanças, pois elas influenciarão escolhas pessoais e exigirão políticas públicas específicas, como a de informar e orientar jovens nas suas decisões.
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(*) Economista (USP), Doutor pela Universidade Harvard (EUA), professor, consultor econômico e autor do livro
“Seu Diploma, Sua Prancha - Como Escolher a Profissão e Surfar no Mercado de Trabalho” (Editora Saraiva, 1998).

Para saber um pouco mais sobre o assunto ... http://www.cartaderh.com.br/website/text.asp?txtCode=30844&txtDate=20071227000000